Passeando por Campos de Lírios: Conversando sobre Yuri e Shoujo-ai [Pt. 2/3]
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Interessante é que apesar de nos mangás esses relacionamentos ficarem explícitos, nos animes shoujo – geralmente dirigidos por homens – eles são esvaziados de seu sentido original (*caso da Rosa de Versalhes*), ou apresentados como coisa passageira, coisa de menina (*como em Oniisama E*) que quando crescer, apesar de guardar com carinho o seu “primeiro amor”, se enquadrará no moldes desejáveis da heterossexualidade compulsória.
Em contrapartida, quando é o erotismo voyeur que está em jogo a questão é amplamente contemplada, seja em hentais como o clássico Amy, my Baby, ou em animes/mangás mainstream como Love Hina e El Hazard.
Se o pioneirismo coube aos anos 70, outras obras levaram a questão adiante nos anos 80, e de forma bem mais decidida e aberta como em Paros no Ken (*que não foi transformado em anime*). Este mangá, que se passa no imaginário Reino de Paros, em uma improvável Grécia Medieval, tem como desenhista a consagrada Yumiko Igarashi, mãe de Candy Candy. Ele conta a história de amor entre uma princesa e uma camponesa que, apesar de todos os obstáculos, terminam juntas, mesmo que o final permaneça em aberto.
Já é um grande avanço, diante das tragédias da década de 70. Fora, que Paros no Ken lembra muito a Rosa de Versalhes, só que com Oscar largando André para trás e terminando com Rosalie. Fosse obra de fãs não seria tão interessante. ^_^
Os anos 90 foram marcados por várias obras que retratavam romances entre mulheres. Em Sailor Moon, ou de forma menos explícita, nos mangás de Shoujo Kakumei Utena e Sakura Card Captors. De forma velada, ou não, apresentado como uma amizade mais intensa ou envolvendo sexo, visto como rito de passagem, tendo final feliz ou trágico, os relacionamentos entre mulheres estão sempre presentes dentro do shoujo mangá. Agora, quando o assunto é anime shoujo a coisa nem sempre aparece, já que boa parte dos mangás com essa temática não é transformada em anime.
Claro que não existe regra nesse sentido e os Utena, principalmente o movie, e Sailor Moon estão aí para provar isso. Aliás, no caso de Sailor Moon, o casal Haruka e Michiru, superou e muito qualquer limite imposto às lésbicas de novela da Globo, aparecendo sem censura na Cartoon Network (*Ainda bem que a regra na época não era a versão limpinha americana!*).
Entre as fãs de shoujo, tenho percebido uma explícita preferência pelo yaoi. Em alguns casos, a resistência ao yuri/shoujo-ai entre as fãs, principalmente, é imediata e não raramente a gente ouve um “Não curto essas coisas entre mulheres, não.”. Nota-se que para muitas fãs, existe a idéia de que o yaoi não arranha a imagem pessoal, enquanto o yuri e o shoujo-ai podem soar quase como uma declaração de orientação sexual. Engraçado isso, pois a gente nega o preconceito, reclama do deboche com mangás shoujo (*lembram de Fruits Basket?*) e da perseguição aos mangás com conteúdo yaoi, mas é capaz das mesmas posturas “defensivas”.
No material yuri/shoujo-ai não dá para desmentir o fato de que realmente está ocorrendo um romance entre mulheres, ou no mínimo uma amizade que soaria suspeita para os padrões Ocidentais. Já no yaoi, alguns autores argumentam, o que poderia estar sendo representado, pelo menos nos quadrinhos mainstream, seria um relacionamento heterossexual idealizado. Muitas fãs, muito mais por desconhecimento do que má vontade, também só conseguem identificar a produção yuri com o hentai, já que esse material se encontra com muita facilidade na net.
Um fenômeno que reforça a resistência é a apropriação das personagens de shoujo mangá (Utena-Anthy, Haruka-Michiro, Tomoyo-Sakura) por fãs homens que produzem material hentai muitas vezes carregado de violência e situações humilhantes. E como a oferta de material mais picante é limitada, muitas fãs de yuri e shoujo-ai acabam tendo como referência materiais shonen, como o mangá Hen, ou mesmo hentais que são muito mais fáceis de encontrar para download.
Tudo isso, eu diria, é influenciado pelo preconceito arraigado na nossa sociedade, que até já consegue suportar a homossexualidade masculina, mas vê a homossexualidade feminina – quando não sujeita aos fetiches tradicionais – com olhos muito pouco gentis. Quer algo mais subversivo e ameaçador do que mulheres que não precisam de homens para se divertir?
Uma das coisas que mais me incomoda no material yuri e shoujo-ai, entretanto, é a presença, em algumas obras, de uma representação muito rígida de papéis com a menina “machona” (*butch*) de cabelo curto, alta, forte e destemida, que ama a menininha pequena, meiga e de longos cabelos (*femme*). É claro que esse tipo de modelo pode ser encontrado na vida real, mas não representam de forma alguma a realidade como um todo.
Parece, que o que está se estabelecendo é uma imitação do que acontece nos mangás yaoi contemporâneos, nos quais figuras como o uke e seme do yaoi. Engraçado é que nos mangás da década de 70, pelo menos na representação visual das meninas, isso não ocorria, e Utena e Maria-sama ga Miteru acabam herdando essa estética que me parece bem mais justa e agradável. Muitas pessoas associam essa caracterização do par lesbiano à influência do Teatro Takarazuka. Criado em 1914, o Takarazuka junta várias influências (teatro de revista, musical americano, Kabuki, Nô, teatro, etc). Nele as mulheres representam tanto os papéis masculinos quanto femininos e recebem um treinamento muito rígido para incorporarem os maneirismos de gênero, já que as atrizes, ainda na sua formação, são designadas para serem homens ou mulheres e fazem o mesmo tipo de papel durante toda a carreira. Ainda hoje, a idolatria feminina em relação às atrizes do Takarazuka é imensa, principalmente em relação àquelas que fazem os papéis masculinos/otokoyaku. Interessante é que esse tipo de tietagem, que no ocidente soaria como homossexual, acontece também nos mangás e animes shoujo (ou não). Mas mesmo essa representação rígida de papéis “femininos” e “masculinos” não constitui uma regra. Independentemente de qualquer convenção que me pareça boa ou ruim, o que vale é que o público japonês parece estar mais receptivo a esse material, ou eu, fã brasileira que depende da net, estou percebendo assim. Afinal, cresce o número de sites, listas de discussão e eventos centrados no material shoujo-ai e yuri. Sinal de mudança dos tempos (?), pelo menos no Japão, foi o lançamento da revista Yuri Shimai em agosto (2003).
Fonte: Anime Pró
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Cara, nem brinca… Disse tudo a respeito do preconceito que tem o Yuri. Lembro-me de ficar muito irritada no Site Gaia, que participo. Porque existem áreas de Artes, onde desenhos de "avatares" são trocados por Gaia Golds, e tudo o mais. Geralmente, no início de um tópico é colocado as regras para os pedidos de desenhos, e tipo… Geralmente as regras incluem coisas como: "Desenho Hétero, Yaoi. Não Desenho: Yuri, Hentai". E eu fico me perguntando, por que diabos alguém desenharia Yaoi e não desenharia Yuri!? ¬¬" Sei lá… A impressão que dá é que comparam mesmo o Yuri ao Hentai explícito e absurdo que vemos por aí na internet. As únicas pessoas que parecem não se incomodar em desenhar Yuri, não se incomodam também em desenhar Hentai, e são geralmente homens. Inclusive, eu abri um tópico com uma conta feminina minha lá, e postei que eu amava Yuri. Apareceram várias mensagens boas ou ruins, inclusive uma de um garoto que disse essa frase: "Vá se masturbar!". Volto a lembrar da associação que essas duas coisas têm, e que me irrita um bocado. :X
PS: Bom, espero que assim como deu a entender seu post, que continuemos a evoluir. Como por exemplo, o lançamento desses mangás one-shots ou não bons, e já sem esse pensamento de que o fim tem que ser trágico, uma personagem tem que ser butch, isso é passado e coisa de adolescente; e dos maravilhosos animes de Aoi Hana e Sasameki, que deixemos isso pra trás, e que os Yuris possam surgir cada vez melhores, com menos preconceitos e mais, mais! xD
Seu comment é tipo quase o dobro do próprio post! Hahahua, num resisti
Isso de Yuri = Hentai é frustrante mesmo. Yaoi é moh coisa assustadora, não faz sentido censurar yuri, e não yaoi…
Por falta de tempo, não vou comentar tudo que gostaria. Apenas deixar como detalhe: Sou mulher, não me interesso por yuri, por motivos que não convém explicar, mas gosto de ler e ter conhecimento sobre tudo, mesmo sobre o que não gosto, para ter argumentos, por isso, hoje decidi pesquisar mais sobre o yuri e conhecer mais esse “universo”.
Ok, bom texto, bem escrito e bons argumentos, isso vale para os três da série, MAS você está reclamando que associam yuri a hentai… Ok, pois a associação yuri = hentai foi exatamente a primeira impressão que este site me passou ao entrar aqui, por causa da imagem do topo, onde há duas garotas nuas abraçadas. A imagem é bonitinha? É, mas passa uma impressão muito mais de hentai do que o que você quis defender neste texto.
Só uma coisa antes de começar: o texto não foi criado por mim, foi retirado do Anime Pró. E eu não acho o banner do site hentai, não. Nem toda nudez em anime é hentai, do mesmo jeito que nem toda em filme é porno.
para mim o yuri e o yaoi sao como qualuqer outro tipo de relaçao … em uma relaçao onde duas pessoas se querem sempre existira sexo e outras coisas. A ideia de sensurar o hentai yuri/yai nao tem nada a ver com isso mais pode se dizer que tem a mesma essencia.
sei que existem muitas pessoas por tras de cada projeto um manga um anime ou um filme … mais a idéia principal que eu penso sobre isso é:
” tentar ver o yuri/yaoi como uma relaçao bonita onde só existe beijos e carinhus é mesmo muito inocente por parte de qualquer um “
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